<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?>
<?xml-stylesheet href="/xsl/rss.xsl" type="text/xsl"?>
<rss version="2.0" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:dcterms="http://purl.org/dc/terms/" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom">
  <channel>
    <title>Wali e o Alforje M&#225;gico</title>
    <link>https://www.podomatic.com/podcasts/wali</link>
    <description>Iraj&#225; Menezes, Newton Carneiro &amp; a Banda Q Animou o Baile da Ilha Fiscal foi o nome que demos Newton e eu, ao projeto de m&#250;sica e performance c&#234;nica que ir&#237;amos desenvolver de 1989 at&#233; 1994. &quot;Wali e o Alforje M&#225;gico&quot; &#233; a id&#233;ia &#224; qual nos dedicamos entre 94 e 95 como uma continua&#231;&#227;o e desdobramento da Banda Q.
Nossa &quot;obra inacabada&quot;.

N&#227;o chegamos a arrematar as grava&#231;&#245;es. A vers&#227;o dispon&#237;vel aqui tem a m&#250;sica e o texto definitivos mais a minha voz-guia para o que planej&#225;vamos gravar com atores convidados e para uma mixagem que pretend&#237;amos refazer.

Pode-se tentar descrever o Wali como um projeto de produzir audio books &quot;diferentes&quot;. Certa mistura entre r&#225;dio-novela, hist&#243;rias da Cole&#231;&#227;o Disquinho do Braguinha, Pedro e o Lobo (?) e t&#233;cnicas modernas de montagem, apreendidas assistindo cinema. A qualquer momento a cena pode ser submetida a uma &quot;edi&#231;&#227;o&quot; de imagens como num filme. Lapsos de tempo, cortes e seq&#252;&#234;ncias paralelas, por exemplo, s&#227;o ostensivamente usados.

Est&#225;vamos em busca de originalidade ao incorporar procedimentos consagrados pelo roteiro cinematogr&#225;fico (a arte da narrativa mais plenamente explorada dos nossos tempos) &#224; conta&#231;&#227;o de hist&#243;rias da tradi&#231;&#227;o oral (Wali &#233; inspirada num blend de contos &#225;rabes e clich&#234;s de s&#233;ries de aventura). Dei a essa maneira de contar hist&#243;rias o nome de Cinema Falado.

Talvez a principal experi&#234;ncia para quem escute contar hist&#243;rias seja a de completar, com a imagina&#231;&#227;o, os &quot;espa&#231;os&quot; e &quot;tempos&quot; que os sons estimulam. Hora prop&#237;cia para que as imagens individuais e subjetivas do ouvinte possam ser experimentadas, cada um a partir de sua cole&#231;&#227;o particular de mem&#243;rias e id&#233;ias. A experi&#234;ncia auditiva colocada em primeiro plano acaba por dialogar com os fotogramas em movimento que se projetam numa tela que cada um cria, sentado sozinho, na plat&#233;ia dentro da sua cabe&#231;a.
</description>
    <language>pt-br</language>
    <generator>Podomatic RSS Generator</generator>
    <pubDate>Fri, 13 Mar 2020 01:09:46 +0000</pubDate>
    <itunes:keywords></itunes:keywords>
    <itunes:subtitle>Iraj&#225; Menezes 12 anos</itunes:subtitle>
    <itunes:explicit>no</itunes:explicit>
    <itunes:block>no</itunes:block>
    <itunes:image href="https://assets.podomatic.net/ts/bf/8c/d2/wali/3000x3000_614663.jpg"/>
    <itunes:author>Wali e o Alforje M&#195;&#402;&#194;&#161;gico </itunes:author>
    <itunes:summary>Iraj&#225; Menezes, Newton Carneiro &amp; a Banda Q Animou o Baile da Ilha Fiscal foi o nome que demos Newton e eu, ao projeto de m&#250;sica e performance c&#234;nica que ir&#237;amos desenvolver de 1989 at&#233; 1994. &quot;Wali e o Alforje M&#225;gico&quot; &#233; a id&#233;ia &#224; qual nos dedicamos entre 94 e 95 como uma continua&#231;&#227;o e desdobramento da Banda Q.
Nossa &quot;obra inacabada&quot;.

N&#227;o chegamos a arrematar as grava&#231;&#245;es. A vers&#227;o dispon&#237;vel aqui tem a m&#250;sica e o texto definitivos mais a minha voz-guia para o que planej&#225;vamos gravar com atores convidados e para uma mixagem que pretend&#237;amos refazer.

Pode-se tentar descrever o Wali como um projeto de produzir audio books &quot;diferentes&quot;. Certa mistura entre r&#225;dio-novela, hist&#243;rias da Cole&#231;&#227;o Disquinho do Braguinha, Pedro e o Lobo (?) e t&#233;cnicas modernas de montagem, apreendidas assistindo cinema. A qualquer momento a cena pode ser submetida a uma &quot;edi&#231;&#227;o&quot; de imagens como num filme. Lapsos de tempo, cortes e seq&#252;&#234;ncias paralelas, por exemplo, s&#227;o ostensivamente usados.

Est&#225;vamos em busca de originalidade ao incorporar procedimentos consagrados pelo roteiro cinematogr&#225;fico (a arte da narrativa mais plenamente explorada dos nossos tempos) &#224; conta&#231;&#227;o de hist&#243;rias da tradi&#231;&#227;o oral (Wali &#233; inspirada num blend de contos &#225;rabes e clich&#234;s de s&#233;ries de aventura). Dei a essa maneira de contar hist&#243;rias o nome de Cinema Falado.

Talvez a principal experi&#234;ncia para quem escute contar hist&#243;rias seja a de completar, com a imagina&#231;&#227;o, os &quot;espa&#231;os&quot; e &quot;tempos&quot; que os sons estimulam. Hora prop&#237;cia para que as imagens individuais e subjetivas do ouvinte possam ser experimentadas, cada um a partir de sua cole&#231;&#227;o particular de mem&#243;rias e id&#233;ias. A experi&#234;ncia auditiva colocada em primeiro plano acaba por dialogar com os fotogramas em movimento que se projetam numa tela que cada um cria, sentado sozinho, na plat&#233;ia dentro da sua cabe&#231;a.
</itunes:summary>
    <atom:link href="https://wali.podomatic.com/rss2.xml" rel="self" type="application/rss+xml"/>
    <item>
      <title>Wali e o Alforje M&#225;gico</title>
      <description>para Samuel Napolitano

PR&#211;LOGO

Venha comigo. Consegue ouvir isso? Esses sons... &#201; Wali, um rapaz.
Saiu do pequeno lugarejo de Deeziedraht e agora j&#225; vai longe. Partiu em busca de lugares que s&#243; conhece na imagina&#231;&#227;o. Pretende chegar &#224; grande cidade de Diiependraht, l&#225; onde se pode ver a grande torre do rel&#243;gio e onde os campos s&#227;o verdes. Preste aten&#231;&#227;o. Consegue escutar seus passos? Ele tamb&#233;m gosta de cantar, cantar baixinho enquanto anda; &#224;s vezes assoviar...
Ele se sente t&#227;o cansado, vem caminhando h&#225; semanas, atravessando a terra desolada, o sol a pino, solit&#225;rio.
Aqui onde o encontramos Wali avistou uma floresta.
N&#227;o est&#225; surpreso, todo aquele que deseja ir &#224; cidade de Diiependraht sabe que, antes, precisa atravessar a trilha da floresta.
Embora tenha procurado todo o tempo por este lugar, agora que o encontrou, Wali tem um pressentimento, uma d&#250;vida...
Respirou pela &#250;ltima vez o ar quente do deserto e abriu caminho entre as &#225;rvores. 

NA FLORESTA

A mata era densa. Olhando para cima Wali viu que as &#225;rvores, muito pr&#243;ximas umas das outras, fechavam a passagem para a luz. L&#225; dentro (&#224; exce&#231;&#227;o dos raios de sol que penetravam como pequenos fachos coloridos) era quase noite.
Ele podia perceber a presen&#231;a de v&#225;rios animais sem, no entanto, v&#234;-los.
Wali n&#227;o tinha no&#231;&#227;o de quanto tempo estava naquele lugar. Seu corpo, no entanto, dizia-lhe: - Estou fatigado! Recostou-se numa &#225;rvore e deixou-se ficar por um instante.

De repente, como se viesse de muito longe, o vento assoviou por entre as folhas. Toda a floresta estremeceu. Os raios de sol executaram uma dan&#231;a colorida por entre as copas das &#225;rvores que se remexiam. Em instantes Wali estava envolvido por um redemoinho de folhas secas. O vento soprava quente, fazia cada vez mais calor. Wali sufocava. Um segundo antes que o vento soprasse com uma for&#231;a quase inacredit&#225;vel, Wali sentiu o tronco das &#225;rvores vergando. Tomado de medo ele come&#231;ou a andar pensando em se afastar dali. Trope&#231;ava a cada passo que dava. Insistiu em continuar. J&#225; estava sufocando quando tudo sossegou. Assim como viera, aquele vento havia desaparecido.


Wali olhou em volta e percebeu que n&#227;o reconhecia o lugar onde estava. Quis voltar, mas acabava andando em c&#237;rculos. Tomado de um certo medo recostou-se novamente esperando que o cora&#231;&#227;o lhe voltasse ao ritmo normal. S&#243; ent&#227;o notou muito pr&#243;ximo de onde estava sentado, ca&#237;do entre as folhas, um alforje de couro. Bem depressa ele o pegou imaginando encontrar dentro dele algo valioso, por&#233;m: - &quot;Que sorte a minha&quot;, disse ele com ironia. &quot;Um alforje vazio...&quot;
&quot;Se ao menos ele tivesse algo que me diminu&#237;sse a sede!&quot;.

Wali percebeu que o alforje, antes vazio, agora se apresentava bojudo. Abriu-o e dentro dele encontrou uma garrafa e, dentro da garrafa, suco gelado. Com um gole apenas sorveu quase todo o l&#237;quido e a&#237; reparou como sua garganta estivera seca.
Pensou alto: - &quot;Ah! E se junto desse suco houvesse algo de bom para comer!&quot;.
Wali ent&#227;o se certificou que o alforje era mesmo m&#225;gico, pois ao toc&#225;-lo novamente ainda p&#244;de senti-lo ficando bojudo. De dentro dele tirou uma galinha assada, doces e uvas frescas. Percebeu que tudo que tinha a fazer era desejar o que quisesse e retir&#225;-lo de dentro do alforje.
Ele estava elegante e confort&#225;vel quando empreendeu novamente sua caminhada pela mata, o alforje pendurado em seu ombro.

NA COLINA

Quando Wali saiu da floresta o sol brilhava intensamente. Olhou a colina &#224; sua frente:

MENINOS - I&#234;&#234;&#234;&#234;&#234;!

MENINOS - O trem!!!

WALI - Hei, hei. Onde voc&#234;s est&#227;o indo?

MENINO - Ao trem, ao trem, voc&#234; n&#227;o v&#234;? O trem est&#225; chegando!

WALI - Mas o que voc&#234;s v&#227;o fazer no trem?

MENINO - Vender nossas orqu&#237;deas! Vamos, o trem de turistas est&#225; chegando!

NA ESTA&#199;&#195;O DE MIIEZERAHT

MENINO 2 &#8211; Comprem! Comprem nossas orqu&#237;deas amarelas! Voc&#234;s nunca viram orqu&#237;deas amarelas assim! Comprem! Comprem! Nossos cestos est&#227;o cheios, nosso bolso est&#225; vazio! Comprem! Orqu&#237;deas amarelas!

PASSAGEIROS - Eu quero uma!

- Eu tamb&#233;m.

- Eu quero uma!

&#8211; Duas para mim.

WALI &#8211; Hei amigo. Por que todos vendem orqu&#237;deas?

MENINO 2 - Porque todos as plantam! Precisamos vend&#234;-las! Onde conseguir&#237;amos dinheiro?

WALI - Ah! Est&#225; bem, mas, elas s&#227;o todas amarelas?

MENINO 2 - Os turistas as adoram amarelas.

WALI - Mas me parece t&#227;o aborrecido... Se ao menos houvessem orqu&#237;deas de cores variadas...

E imediatamente Wali p&#244;de sentir o alforje mais pesado. Sacou um buqu&#234; de orqu&#237;deas e disse: - &quot;Tome: um presente de um forasteiro que deseja sua amizade&quot;.

MENINO 2 - Argh! Nunca vi nada mais bizarro: um buqu&#234; de orqu&#237;deas roxas!

WALI - Se n&#227;o gosta, que acha destas vermelhas?

MENINO 3 - Chegam a me causar n&#225;useas... Orqu&#237;deas vermelhas!

PASSAGEIRO - Qu&#234;? O que disse? Orqu&#237;deas vermelhas? Deixa ver. Ah! Que interessante! Eu quero um buqu&#234;.

WALI - Pois n&#227;o, cavalheiro.

PASSAGEIRO - Vejam: orqu&#237;deas coloridas! 

PASSAGEIROS - Eu quero!

- Orqu&#237;deas verdes!

- Na Europa n&#227;o se usa outra coisa! Eu quero.

No meio daquela confus&#227;o um dos meninos achou por bem avisar o chefe do bando dos floristas. Ali Bu, pois era assim que ele se chamava, abandonou o que estava fazendo e apressou-se em ver o que acontecia. Era um homem alto, de nariz adunco e espessas sobrancelhas peludas.

ALI BU - Hei, todos est&#227;o comprando as orqu&#237;deas do forasteiro. Ningu&#233;m olha pras nossas! Temos que det&#234;-lo. Hei, forasteiro, o que pensa que est&#225; fazendo? Este &#233; o nosso lugar de vender flores. 

MENINO 2 - Tire o alforje dele, jogue todas essas flores coloridas no lixo.

MENINOS - Mas o alforje est&#225; vazio!

- Como? E de onde vieram as flores?

- Vai ver esse alforje tem algum segredo.

- Vamos, chacoalhe-o, bata nele, esfregue!

- Quem sabe precisa de uma palavra m&#225;gica?

- Abracadabra! Shazam!!! Alacazam!!! Sinsalabim!!! Amasse-o!!! QUEIME-O!  CORTE-O EM PEDACINHOS!!!

ALI BU - CHEGA! Pegue. Forasteiro... fa&#231;a-o funcionar ou quebrarei cada um de seus ossos.

NO VAG&#195;O RESTAURANTE

CRIAN&#199;A &#8211; Mam&#227;e! Veja! Os meninos cercaram o vendedor de orqu&#237;deas coloridas!

M&#195;E - Ah, querido, isso n&#227;o &#233; nada! Esses meninos de beira de estrada t&#234;m um modo de brincar muito diferente. Feche a janela, o trem j&#225; vai partir e o seu ch&#225; est&#225; esfriando.

CRIAN&#199;A &#8211; N&#227;o! Olhe! &#201; incr&#237;vel! Ele est&#225; fazendo surgir uma orqu&#237;dea enorme como uma &#225;rvore! Est&#225; saindo do alforje... Os galhos se transformaram em espadas e est&#227;o pegando fogo!

M&#195;E - Ah, filhinho, sempre t&#227;o cheio de imagina&#231;&#227;o! Feche a janela, o trem j&#225; vai partir. 

Wali abriu caminho brandindo sua espada flamejante contra os meninos, por&#233;m, eram muitos e ele teve que correr.  

MENINOS - L&#225; est&#225; ele, n&#227;o o deixem fugir.

[...]

WALI - Se houvesse algo que os afastasse...

Wali ent&#227;o despejou os cacos de vidro que surgiram dentro do alforje.

MENINOS - Ai! Meu p&#233;!

MENINOS - Ele est&#225; alcan&#231;ando o trem!

MENINO 2 &#8211; Ele alcan&#231;ou o trem! Est&#225; fugindo! Maldito!

ALI BU - Eu ainda pego esse fedelho!

NO TREM

Dentro do trem Wali, muito assustado com o que lhe acontecera na esta&#231;&#227;o, tratou de procurar uma cabine onde pudesse se esconder.
Aquele lugar era grande e escuro. Havia malas, caixas e roupas. Wali desejou poder enxergar naquele escuro, puxou de dentro do alforje um lampi&#227;o, colocou-o sobre uma caixa e j&#225; ia encontrando um canto para descansar quando percebeu um ru&#237;do.
- &quot;Quem est&#225; a&#237;?&quot; E em resposta ouviu o mesmo ru&#237;do, vindo da mesma dire&#231;&#227;o.
- &quot;Tem algu&#233;m a&#237;?&quot;, aproximou-se.
Por tr&#225;s de uma pilha de malas e objetos pesados Wali enxergou um vulto. Devagar foi chegando mais perto e p&#244;de ver: era uma menina, de olhos claros e cabelos negros. Assustada, esgueirava-se pela cabine como se tentasse fugir. Ao ver Wali, no entanto, parou e olhou-o com curiosidade.
- &quot;Voc&#234; n&#227;o &#233; um dos floristas&quot;, disse ela, com al&#237;vio.
- &quot;E o que voc&#234; est&#225; fazendo a&#237;, escondida?&quot;, Wali perguntou.

ZULEIKA - Estou fugindo dos vendedores de orqu&#237;deas da esta&#231;&#227;o.

Ela come&#231;ou a contar como os floristas haviam se enraivecido quando ela apareceu na esta&#231;&#227;o tentando vender rosas.

ZULEIKA - Os meninos jogaram meu cesto de rosas no lixo e me arrastaram para falar com o chefe do bando, um homem chamado Ali Bu que jurou arrancar todos os fios do meu cabelo! Por sorte, naquela hora houve uma enorme correria na esta&#231;&#227;o, por causa de algu&#233;m que apareceu com uma espada de fogo (ou alguma coisa assim) e eles foram todos ver o que estava acontecendo. Aproveitei e corri para me esconder no trem, mas dois deles vieram atr&#225;s de mim. Devem estar me procurando e v&#227;o aparecer a qualquer momento.

- &quot;E eu que pensei que poderia ser amiga dos vendedores de orqu&#237;deas&quot;, lamentou-se.

- &quot;Eu tamb&#233;m&quot;, confessou Wali.

- &quot;Mas as flores... eram todas... amarelas!!!&quot;, os dois lembraram ao mesmo tempo e acharam gra&#231;a.

WALI &#8211; Como voc&#234; se chama?

ZULEIKA &#8211; Zuleika.

A menina se interessa, ent&#227;o, em saber o que &#233; que Wali carrega dentro do alforje.
Ele responde que nada tem. 

ZULEIKA - Ah, se ao menos houvesse uma enorme garrafa de suco gelado nesse alforje para atenuar a minha sede.

A garrafa que surgiu dentro do alforje era t&#227;o grande que o derrubou do ombro de Wali, esparramando suco pelo ch&#227;o. Zuleika correu a pegar a garrafa e com grandes goles sorveu seu conte&#250;do. Lambendo os bei&#231;os diz para Wali: - &quot;Mas o que h&#225; neste alforje?&quot;.

- &quot;Ora... nada.&quot;, tentou disfar&#231;ar Wali.

ZULEIKA - Ah, sim, &#233; verdade... est&#225; vazio. Se ao menos estivesse cheio de espigas de milho quentinhas!

Wali tentava manter o alforje fechado.

ZULEIKA - Ah, e um pouco de sal para o milho... Delicioso! Precisamos tamb&#233;m de guardanapos e talheres, se os tiv&#233;ssemos...
 
Zuleika batia palmas e dava gritinhos a cada nova coisa que o alforje lhes dava. Wali tentava dissuadi-la: - &quot;Vamos, n&#243;s precisamos sair daqui&quot;.

ZULEIKA - E se tiv&#233;ssemos duas bonecas de porcelana, como na China, deixe ver... em tamanho natural ...da minha altura...

- &quot;Vamos&quot;, dizia Wali.

ZULEIKA...  - Um pequeno p&#225;ssaro de estima&#231;&#227;o em uma gaiola dourada, dois pares de sapatos vermelhos, uma tiara de brilhantes...

Algu&#233;m mexeu na porta. Os dois se escondem. Permanecem calados escondidos num canto.

BANDIDO - Zuleika? Zuleika? Ela sumiu. Aquela maldita menina sumiu! E todos esses objetos aqui? Zuleika, voc&#234; est&#225; ai?

- &quot;Sim&quot;, responde Zuleika do esconderijo.

BANDIDO - E voc&#234; est&#225; sozinha?

ZULEIKA - N&#227;o.

BANDIDO - Quem est&#225; a&#237; com voc&#234;?

ZULEIKA - Eu, Wali... e o nosso tigrinho de estima&#231;&#227;o.

BANDIDO &#8211; Oooohhh!!! Socorro!!!

NO CORREDOR 

CRIAN&#199;A - M&#227;e! Sai da&#237;!Vem ver! Um tigre, m&#227;e! Pulou pela janela!

M&#195;E &#8211; Menino: espera! Ser&#225; que eu n&#227;o posso nem usar o banheiro em paz?

NA ESTA&#199;&#195;O DE DIIEPENDERAHT

O trem que chega &#224;s 6 horas da tarde &#224; esta&#231;&#227;o de Diiependraht traz pessoas de v&#225;rios lugares. Viajantes que voltam &#224; casa depois de jornadas aos cantos distantes do pa&#237;s, senhoras que visitaram parentes em cidades pr&#243;ximas, crian&#231;as que v&#234;m de volta &#224; casa depois de uma semana de escola em outra cidade, homens que vivem em outros lugares e que v&#234;m &#224; Diiependraht fazer neg&#243;cios. Mulheres com chap&#233;us enormes e coloridos passeiam pela plataforma da esta&#231;&#227;o. Vendedores gritam seus produtos. O auto-falante anuncia, em meio &#224; mir&#237;ade de sons e imagens, uma pr&#243;xima partida. 
E, vejam, l&#225; est&#227;o Wali e Zuleika! Eles desembarcam vestidos &#224; maneira dos cavalheiros e senhoras que viram no trem. Sentaram-se para observar todo aquele movimento. Wali e Zuleika, ent&#227;o, falaram de suas saudades. Wali contou como era sua casa, lembrou das brincadeiras com seus amigos, seus pais.
Zuleika falou de seu pai, de sua casa em Diihzidiederaht, falou que gosta de ir &#224; praia, das festas de sua cidade, de suas amigas, que gosta de ir &#224; escola. Agora eles est&#227;o se rindo, um para o outro. O vento sopra. 


ZULEIKA &#8211; Esse vento... acho que vem chuva. Vem; est&#225; na hora de irmos, o trem para a minha cidade parte daqui a pouco. Vamos.

ALI BU &#8211; Onde pensa que vai, fedelho?

NO COVIL DO ALI BU

MENINO 2 - Abracadabra! Abre-te, S&#233;samo! Maldi&#231;&#227;o! Esse alforje n&#227;o funciona! 

MENINO - Talvez esfregando...

MENINO 2 - &#201; in&#250;til!

MENINO - N&#227;o conseguiremos descobrir.

ALI BU &#8211; Est&#225; muito bem... Digam: como este maldito alforje funciona?

ZULEIKA - Eu j&#225; disse: se voc&#234; nos desamarrar, eu conto.

ALI BU - Minha querida Zuleika, desamarr&#225;-los? Vou at&#225;-los ao galho da &#225;rvore mais pr&#243;xima e enforc&#225;-los bem devagar... Contem! Como funciona este maldito alforje?

ZULEIKA - Eu conto, se voc&#234; nos desamarrar... Ai!

ALI BU - Chega! Vamos acabar com isso. Voc&#234;s dois, levem o fedelho e amarrem-no aos trilhos. O trem da meia noite se encarregar&#225; de completar nosso servi&#231;o. Voc&#234;, Zuleika, vem comigo. Vou lev&#225;-la ao topo da torre.

ALI BU - Vamos, Zuleika, para a torre.

WALI - Zuleika!

ZULEIKA - Wali!!!

WALI - Hei, escute: voc&#234;s talvez passem o resto da vida tentando fazer o alforje funcionar. Eu posso contar pra voc&#234; como ele funciona. E voc&#234; nem precisa contar para o Ali Bu! J&#225; imaginou quantas coisas d&#225; pra tirar de dentro do alforje?

ZULEIKA - Ali Bu, eu tenho certeza que voc&#234; quer aprender a usar o alforje. Eu posso ensinar voc&#234;. Se n&#243;s fizermos um acordo... 

MENINO - T&#225; bem, Wali, vamos fazer um acordo.

ALI BU - Ali Bu n&#227;o faz acordos! 

WALI &#8211; Preste aten&#231;&#227;o, eu vou explicar. O alforje funciona assim:

ZULEIKA - Ali Bu, eu vou gritar!

WALI &#8211; Gritar n&#227;o adianta. Tem que imaginar. Por exemplo, alguma coisa suculenta.

ALI BU - Grite &#224; vontade, princesa! Nesta barulheira infernal, quem vai te ouvir?

WALI &#8211; Alguma coisa macia, crocante, geladinha.

ALI BU - Ou&#231;a... Isso soa como m&#250;sica aos meus ouvidos!

WALI &#8211; A&#237; &#233; s&#243; ir abrindo o alforje devagar e esperar sair de dentro dele todas as lesmas, minhocas, serpentes asquerosas, besouros e vermes que voc&#234;s merecem.

ALI BU &#8211; Pronto. Amarradinha na torre &#233; s&#243; esperar chegar a meia-noite.

MENINOS &#8211; Wali! 
- Wali! Volte aqui! Por favor!
- Socorro!
- N&#227;o nos deixe aqui!
- N&#227;&#227;&#227;oooo!!!

ZULEIKA - Ali Bu, voc&#234; est&#225; me amarrando aos dentes das engrenagens. Quando me encontrarem eu j&#225; terei sido esmigalhada!

ALI BU - Ah, esmigalhada? Ah, querida, o tempo maltrata a gente, n&#227;o &#233; mesmo?

ZULEIKA &#8211; Wali! Socorro!!!

WALI - Zuleika!
 
ALI BU - Que som &#233; esse? Quem est&#225; a&#237;? Apare&#231;a.
Ah! &#201; voc&#234;, fedelho? Hei, mas o que &#233; isso a&#237; que voc&#234; tem na m&#227;o?

WALI - Vamos, Zuleika, preciso solt&#225;-la. Ali Bu bateu a cabe&#231;a e est&#225; atordoado, mas logo recobrar&#225; os sentidos. Pronto, est&#225; livre das engrenagens, soltemos agora as cordas.

ZULEIKA &#8211; Oooohhh!

Ali Bu atacou novamente. Os dois lutam e sem perceber v&#227;o se aproximando do grande c&#237;rculo de vidro do mostrador do rel&#243;gio da torre.

ZULEIKA - Wali, cuidado! WALI!!! 

A MUITOS METROS DO CH&#195;O

No meio da noite escura est&#227;o os inimigos. No alto da torre do rel&#243;gio, a muitos metros do ch&#227;o. Wali, pendurado ao ponteiro das horas. No grande ponteiro dos minutos, Ali Bu e em sua m&#227;o o alforje. 

ALI BU - Fedelho, voc&#234; sabe ver as horas? S&#227;o onze horas e quarenta e cinco minutos.  Meu ponteiro andar&#225; at&#233; o seu e em quinze minutos, exatamente &#224; meia noite, n&#243;s nos encontraremos. Meia noite!

ALI BU - Onze e cinq&#252;enta. Faltam dez minutos, Wali! Dez minutos para a meia-noite! Voc&#234; sabe ver as horas, Wali?

Para Wali o tempo corria devagar. Agora ele sabia que Ali Bu n&#227;o faria acordo algum e qualquer coisa que pedisse ao alforje, de t&#227;o perto que estavam, acabaria por atingi-lo tamb&#233;m.

 ALI BU - Onze e cinq&#252;enta e cinco... Onze e cinq&#252;enta e sete! S&#243; mais tr&#234;s minutos. Quando os ponteiros se juntarem eu vou cortar com minha adaga, um a um, os dedinhos da sua m&#227;o.

De fato, Ali Bu estava t&#227;o perto que Wali podia sentir o ar de suas narinas. Numa ultima tentativa gritou: - &quot;Pois bem, Ali Bu, fa&#231;a isso e perca a &#250;ltima chance de aprender a usar o alforje&quot;.

ALI BU - Ora, que v&#225; para o inferno este alforje junto com voc&#234;. Ali Bu n&#227;o faz acordos, fedelho. Que me importa este alforje, que me importa voc&#234;? Agora eu quero voc&#234;s dois mortos, e este alforje... Eu vou queim&#225;-lo!!! De que me serve esta sacola fedorenta se ela est&#225; sempre vazia? Se ao menos achasse dentro dela algum ouro ou j&#243;ia preciosa...

Ali Bu percebeu o alforje, pendurado em seu ombro, ficar mais pesado. Com dificuldade olhou dentro dele e enxergou dois rubis enormes. Veio-lhe a compreens&#227;o da maneira de funcionar do alforje.

ALI BU - Se ao menos eu achasse ouro... Diamantes... Ouro... Ouro em barra... Ouro em p&#243;! P&#233;rolas, ametistas, moedas. Quilos de ouro. Quilos! Meu peso em ouro! Duas vezes meu peso em ouro e j&#243;ias! Ah! Como est&#225; pesado... Que maravilha! Isso deve valer milh&#245;es! Est&#225; pesado! T&#227;o pesado... T&#225; pesado!!!  Eu vou cair... Aaaaahhhh...

NA CASA EM FRENTE &#192; TORRE

CRIAN&#199;A - Mam&#227;e, mam&#227;e. Voc&#234; n&#227;o vai acreditar! Eu acabei de ver dois homens pendurados nos ponteiros do rel&#243;gio da torre, um deles finalmente caiu! Eles estavam lutando, mam&#227;e!

M&#195;E - Feche a janela, vamos dormir. N&#243;s fizemos uma longa viagem hoje e j&#225; passa da meia noite.

CRIAN&#199;A &#8211; Ah, mam&#227;e, mas eu quero ver o trem da meia noite chegando. S&#243; mais um pouco.

M&#195;E - Feche a janela e v&#225; para o seu quarto. Tigres, orqu&#237;deas gigantes, homens pendurados nos ponteiros do rel&#243;gio. Quanta imagina&#231;&#227;o!

S&#227;o Paulo, Brasil, 1994/1995




</description>
      <guid isPermaLink="true">https://wali.podomatic.com/entry/2007-04-29T13_19_40-07_00</guid>
      <comments>https://www.podomatic.com/podcasts/wali/episodes/2007-04-29T13_19_40-07_00</comments>
      <pubDate>Sun, 29 Apr 2007 20:19:40 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2013-12-05</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-05</dcterms:created>
      <link>https://www.podomatic.com/podcasts/wali/episodes/2007-04-29T13_19_40-07_00</link>
      <dc:creator>Wali e o Alforje M&#195;&#402;&#194;&#161;gico </dc:creator>
      <itunes:keywords></itunes:keywords>
      <enclosure url="https://wali.podomatic.com/enclosure/2007-04-29T13_19_40-07_00.mp3" length="22936444" type="audio/mpeg"/>
      <itunes:duration>1568</itunes:duration>
      <itunes:explicit>no</itunes:explicit>
      <itunes:summary>para Samuel Napolitano

PR&#211;LOGO

Venha comigo. Consegue ouvir isso? Esses sons... &#201; Wali, um rapaz.
Saiu do pequeno lugarejo de Deeziedraht e agora j&#225; vai longe. Partiu em busca de lugares que s&#243; conhece na imagina&#231;&#227;o. Pretende chegar &#224; grande cidade de Diiependraht, l&#225; onde se pode ver a grande torre do rel&#243;gio e onde os campos s&#227;o verdes. Preste aten&#231;&#227;o. Consegue escutar seus passos? Ele tamb&#233;m gosta de cantar, cantar baixinho enquanto anda; &#224;s vezes assoviar...
Ele se sente t&#227;o cansado, vem caminhando h&#225; semanas, atravessando a terra desolada, o sol a pino, solit&#225;rio.
Aqui onde o encontramos Wali avistou uma floresta.
N&#227;o est&#225; surpreso, todo aquele que deseja ir &#224; cidade de Diiependraht sabe que, antes, precisa atravessar a trilha da floresta.
Embora tenha procurado todo o tempo por este lugar, agora que o encontrou, Wali tem um pressentimento, uma d&#250;vida...
Respirou pela &#250;ltima vez o ar quente do deserto e abriu caminho entre as &#225;rvores. 

NA FLORESTA

A mata era densa. Olhando para cima Wali viu que as &#225;rvores, muito pr&#243;ximas umas das outras, fechavam a passagem para a luz. L&#225; dentro (&#224; exce&#231;&#227;o dos raios de sol que penetravam como pequenos fachos coloridos) era quase noite.
Ele podia perceber a presen&#231;a de v&#225;rios animais sem, no entanto, v&#234;-los.
Wali n&#227;o tinha no&#231;&#227;o de quanto tempo estava naquele lugar. Seu corpo, no entanto, dizia-lhe: - Estou fatigado! Recostou-se numa &#225;rvore e deixou-se ficar por um instante.

De repente, como se viesse de muito longe, o vento assoviou por entre as folhas. Toda a floresta estremeceu. Os raios de sol executaram uma dan&#231;a colorida por entre as copas das &#225;rvores que se remexiam. Em instantes Wali estava envolvido por um redemoinho de folhas secas. O vento soprava quente, fazia cada vez mais calor. Wali sufocava. Um segundo antes que o vento soprasse com uma for&#231;a quase inacredit&#225;vel, Wali sentiu o tronco das &#225;rvores vergando. Tomado de medo ele come&#231;ou a andar pensando em se afastar dali. Trope&#231;ava a cada passo que dava. Insistiu em continuar. J&#225; estava sufocando quando tudo sossegou. Assim como viera, aquele vento havia desaparecido.


Wali olhou em volta e percebeu que n&#227;o reconhecia o lugar onde estava. Quis voltar, mas acabava andando em c&#237;rculos. Tomado de um certo medo recostou-se novamente esperando que o cora&#231;&#227;o lhe voltasse ao ritmo normal. S&#243; ent&#227;o notou muito pr&#243;ximo de onde estava sentado, ca&#237;do entre as folhas, um alforje de couro. Bem depressa ele o pegou imaginando encontrar dentro dele algo valioso, por&#233;m: - &quot;Que sorte a minha&quot;, disse ele com ironia. &quot;Um alforje vazio...&quot;
&quot;Se ao menos ele tivesse algo que me diminu&#237;sse a sede!&quot;.

Wali percebeu que o alforje, antes vazio, agora se apresentava bojudo. Abriu-o e dentro dele encontrou uma garrafa e, dentro da garrafa, suco gelado. Com um gole apenas sorveu quase todo o l&#237;quido e a&#237; reparou como sua garganta estivera seca.
Pensou alto: - &quot;Ah! E se junto desse suco houvesse algo de bom para comer!&quot;.
Wali ent&#227;o se certificou que o alforje era mesmo m&#225;gico, pois ao toc&#225;-lo novamente ainda p&#244;de senti-lo ficando bojudo. De dentro dele tirou uma galinha assada, doces e uvas frescas. Percebeu que tudo que tinha a fazer era desejar o que quisesse e retir&#225;-lo de dentro do alforje.
Ele estava elegante e confort&#225;vel quando empreendeu novamente sua caminhada pela mata, o alforje pendurado em seu ombro.

NA COLINA

Quando Wali saiu da floresta o sol brilhava intensamente. Olhou a colina &#224; sua frente:

MENINOS - I&#234;&#234;&#234;&#234;&#234;!

MENINOS - O trem!!!

WALI - Hei, hei. Onde voc&#234;s est&#227;o indo?

MENINO - Ao trem, ao trem, voc&#234; n&#227;o v&#234;? O trem est&#225; chegando!

WALI - Mas o que voc&#234;s v&#227;o fazer no trem?

MENINO - Vender nossas orqu&#237;deas! Vamos, o trem de turistas est&#225; chegando!

NA ESTA&#199;&#195;O DE MIIEZERAHT

MENINO 2 &#8211; Comprem! Comprem nossas orqu&#237;deas amarelas! Voc&#234;s nunca viram orqu&#237;deas amarelas assim! Comprem! Comprem! Nossos cestos est&#227;o cheios, nosso bolso est&#225; vazio! Comprem! Orqu&#237;deas amarelas!

P(continued)</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>para Samuel Napolitano

PR&#211;LOGO

Venha comigo. Consegue ouvir isso? Esses sons... &#201; Wali, um ...</itunes:subtitle>
    </item>
  </channel>
</rss>
